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Cientistas e educadores participam de encontro no Rio de Janeiro

13 de dezembro de 2016

Nos dias 9 e 10 de dezembro, educadores e pesquisadores de diversos campos da ciência se reuniram no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, para o I Encontro Nacional entre Cientistas e Educadores, que promoveu o diálogo e apontou caminhos para a colaboração entre as duas áreas. Realizado pela Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), em parceria com o Museu do Amanhã e o Instituto Ayrton Senna, o encontro compartilhou evidências científicas que podem apoiar as práticas pedagógicas.

“O uso da ciência pela sociedade não pode ser separado da educação. A melhor maneira de educar as crianças para viver no mundo de hoje é dialogar com a ciência”, afirmou Luiz Alberto Oliveira, representante do Museu do Amanhã. “Somente com a ponte levando para a sala de aula aquilo que a ciência nos ajuda a compreender melhor, como o funcionamento do cérebro, a gente poderá fazer a educação avançar”, complementou o diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos.

Durante o encontro, cerca de 300 participantes puderam acompanhar apresentações de pesquisas com potencial de oferecer informações que podem ser usadas por educadores para apoiar sua atuação nas escolas, com objetivo de garantir aprendizagem efetiva dos alunos. “Há vários exemplos na realidade educacional que indicam que a ciência pode ajudar na proposta de boas intervenções em educação”, disse o coordenador da Rede CpE e neurocientista Roberto Lent.

Ao longo dos dois dias, foram apresentados trabalhos voltados para áreas como tecnologia e aprendizagem, competências metacognitivas (vinculadas à reflexão sobre o próprio processo de aprendizagem), socioemocionais (vinculadas à relação com as próprias emoções, com os outros e com objetivos de vida) e aspectos vinculados ao desenvolvimento, como o estresse, a nutrição, as atividades físicas e o sono.

“As experiências pelas quais cada pessoa passa impactam no seu desenvolvimento, por isso é importante conhecer os processos típicos, atípicos e de risco para poder trabalhar com a prevenção, que também pode acontecer por meio da educação”, defendeu a professora da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), Beatriz Linhares.

O pesquisador da UFPR (Universidade Federal do Paraná) Fernando Louzada complementou mostrando dados de diversas pesquisas que indicam que o desenvolvimento cerebral está associado a fatores como nutrição e atividade física. Ele mostrou estudos relacionando o nível socioeconômico ao volume de massa cinzenta (em grupos de maior pobreza há tendência de pessoas terem menor volume, o que pode ser revertido com medidas simples, como atendimento de qualidade durante a primeira infância). Outros estudos apresentados informam que a atividade física estimula o crescimento do número de neurônios e que durante o sono muitas aprendizagens são consolidadas, fazendo dele um importante tópico no planejamento escolar.

“A gente se alimenta do conhecimento científico para elaborar melhores práticas, é importante que educadores tenham acesso a essas informações e se preocupem com elas quando elaboram intervenções educacionais”, afirmou Louzada. Na mesma mesa de debate, o pesquisador da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) Sidarta Ribeiro adicionou que ainda há perguntas a serem respondidas pela ciência, mas já é possível desenvolver ações efetivas a partir das evidências atuais. “A ciência não vai ‘prescrever’ soluções, mas é importante que ela possa avançar para fornecer mais dados que auxiliem a prática. É importante haver políticas públicas que invistam em pesquisas sobre esses temas que nos permitam compreender melhor os fatores que podem melhorar a educação”, disse Sidarta.

Com a participação de professores do ensino básico e representantes de faculdades de Educação, o evento também indicou contribuições que a escola pode oferecer aos cientistas para contribuir com as pesquisas acadêmicas, ao indicar a realidade que professores encontram nas salas de aula e as demandas por inovações na formação inicial. “O uso da tecnologia, por exemplo, já está sendo discutido como recurso pedagógico em nosso grupo de pesquisa e estamos buscando gerar mais informações para apoiar as escolas nesse sentido”, compartilhou a pesquisadora da Faculdade de Educação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Patrícia Behar.

ESTUDO SOBRE ALFABETISMO E COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS

Durante o encontro, o economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper Ricardo Paes de Barros anunciou o lançamento do relatório “Estudo especial sobre alfabetismo e competências socioemocionais na população adulta brasileira”, resultado de um trabalho conjunto entre Instituto Ayrton Senna, Instituto Paulo Montenegro, Ação Educativa e Rede Conhecimento Social. Disponível para download no site do Instituto Ayrton Senna, o relatório aborda dados coletados pelo INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional) em 2015, que contou também com informações inéditas a respeito de competências socioemocionais (especificamente, as competências de Abertura ao Novo, Autogestão e Autoconceito).

“Muitas evidências científicas indicam que o desenvolvimento socioemocional potencializa a aprendizagem e pode dar mais sentido à educação para os jovens. O que vimos com esse novo estudo foi que o socioemocional é também um importante aliado para mitigar os efeitos da desigualdade de oportunidades no País”, explicou Paes de Barros.

Segundo o estudo, uma parcela da população adulta estudada tende a reproduzir as condições de vida de sua origem social: pessoas com mães com baixa escolaridade, por exemplo, apresentaram também baixa escolaridade e maiores níveis de analfabetismo funcional, indicando a constância da falta de oportunidades no Brasil. Contudo, o estudo também mostra que cerca de 21% da população de origem humilde conseguiu obter altos níveis de realizações (indicados no estudo por alfabetismo, escolaridade e renda), sendo que esse grupo mostrou, principalmente, maior destaque nas três competências socioemocionais pesquisadas.

“Isso indica que o nível socioemocional pode aumentar a capacidade de realização de quem tem uma origem desfavorável e precisa superar mais barreiras do que quem teve origem mais favorável”, afirmou o economista. Ainda segundo Paes de Barros, a educação socioemocional tem potencial para fazer o Brasil avançar o equivalente a dez anos em termos de escolaridade da população. “Desenvolver essas competências pela via da educação é um direito e, se usado em políticas públicas, pode gerar resultados fantásticos de realizações para todos.”

SOBRE A REDE CpE

Criada em novembro de 2015, a Rede Nacional de Ciência para Educação é formada por membros de mais de 70 grupos de pesquisas de todo o país unidos com o objetivo de estimular estudos científicos que possam dar lastro a práticas e políticas educacionais baseadas em evidências. O projeto conta com o apoio do Instituto Ayrton Senna, do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação industrial (Embrapii) e do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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