Notícias

evento-alfabetização
Encontro mostra caminhos para a alfabetização no século 21

09 de agosto de 2017

Prefeitos, secretários de Educação, educadores e especialistas em diversas áreas do conhecimento estiveram reunidos em São Paulo para o encontro “Educação no século 21: Alfabetização – dilemas do passado e caminhos para o futuro”. Realizado pelo Instituto Ayrton Senna, o evento abordou novas formas de compreender o processo de alfabetização, tanto da perspectiva pedagógica quanto de gestão das redes de ensino.

“Com o evento, buscamos articular diferentes saberes para o desenvolvimento de crianças nascidas no século 21. As pesquisas relacionadas com alfabetização e a gestão de recursos podem conversar para isso”, disse a gerente-executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna, Inês Kisil Miskalo. ”Crianças que chegam ao 3º ano sem aprender a ler e escrever, se não contam com pessoas que tenham um olhar para elas se desenvolverem, podem ter alguns caminhos interrompidos na vida, e isso é uma responsabilidade de todo nós. Como nos articulamos para oferecer algo diferente para esses estudantes? Temos que ser agentes de transformação, e isso inclui mudar algumas questões culturais.”

Para contribuir com essas mudanças, o evento contou com apresentações sobre experiências positivas de financiamento e mecanismos de cooperação que apoiem as secretarias de Educação na gestão dos desafios, e também sobre o conceito de alfabetização integral – que busca explorar as múltiplas linguagens, como alfabetização digital, científica, corporal e socioemocional, consideradas essenciais no cenário do século 21.

“As pessoas precisam ser capazes de viver nesse mundo atual, conviver respeitando os diferentes tipos de pensamento e formas de ser, serem capazes de cooperar nas relações. Mas, se a educação desenvolve as pessoas apenas no aspecto cognitivo, de conteúdo, teremos uma sociedade de pessoas formadas apenas pela metade”, afirmou a presidente do Instituto, Viviane Senna. “A boa notícia é que podemos ter ajuda das competências socioemocionais, tanto para promover a aprendizagem quanto para ter uma educação plena, que desenvolve o ser por inteiro. A gente pensa em aterrissar esse conceito nas escolas, inclusive na alfabetização, porque há um conjunto de letramentos que são igualmente importantes para as realizações na vida das crianças, como o científico e o corporal.”

A primeira apresentação do evento, do economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, Ricardo Paes de Barros, contou justamente com uma análise inédita de um conjunto de dados que indicam possíveis efeitos do analfabetismo ao longo da vida. A partir de informações da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios, do IBGE) e de outras fontes, o estudo fez um recorte entre pessoas com 35 anos, considerando as que estudaram pelo menos os três primeiros anos do Ensino Fundamental e as que não concluíram nem três anos. Essa informação de escolaridade foi considerada representante de oportunidades de alfabetização.

Observando questões relacionadas ao trabalho, renda, saúde, planejamento familiar e à educação dos filhos, o grupo considerado alfabetizado atinge 77% do que seria o resultado máximo na combinação desses indicadores, enquanto o grupo não alfabetizado chega apenas a 43%. Isso significa, entre outras coisas, que não se alfabetizar plenamente reduz as chances de aprovação nas séries seguintes, aumenta a probabilidade de relatar doenças (ou de considerar sua saúde ruim), reduz a frequência da prática de esportes, as chances de emprego formal – e, quando há emprego, tende a ganhar a metade do pagamento por hora -, além de ter impacto até na educação dos filhos, que tendem a ter menor acesso a creches, pré-escola e ao Ensino Médio completo.

“Estudamos mais de 200 indicadores, e em todos eles quem não teve três anos de escolaridade possui resultados menos favoráveis nas realizações da vida aos 35 anos. Isso indica que toda vez que a gente não alfabetiza um estudante na idade certa, tem inúmeras consequências para a vida futura dele”, analisou Paes de Barros, reforçando que a alfabetização integra o direito humano à educação e é uma condição imprescindível para a realização dos outros direitos humanos também.

GESTÃO

A primeira roda de conversa do evento trouxe especialistas em políticas educacionais e em estratégias de gestão. Com mediação de André Portela, a mesa teve participação de Nasser Marão Filho, participante do Arranjo de Desenvolvimento da Educação do Noroeste do Estado de São Paulo, Eliziane Gorniak, diretora do Instituto Positivo, e Fernando Abrucio, professor da Fundação Getúlio Vargas.

”Problemas complexos tendem a não ser apenas municipais, são regionais, e é preciso realizar políticas conjuntas em temas de interesse mútuo. Se a gente construir polos, podemos ter melhores resultados em educação”, defendeu Abrucio. Segundo ele, se os Estados se articulassem e apoiassem mais os municípios, poderiam ter melhores resultados, mas atualmente ainda é muito frágil essa relação.

”O analfabetismo pode parecer algo simples de resolver, mas não é, tem uma complexidade grande e exige muito de quem quer resolver. Os arranjos têm potencialidade para atacar problemas graves como esse. É preciso criar um conjunto de instrumentos de gestão para isso”, analisou o pesquisador, destacando o Estado do Ceará como um exemplo positivo de gestão intergovernamental.

Ao relatar a experiência de construção de um Arranjo de Desenvolvimento na Educação com 22 municípios da Região Metropolitana de Florianópolis (SC), Eliziane destacou a importância da atuação conjunta. “Um secretário sozinho leva um tempo grande para fazer as mudanças que precisa, mas com apoio de outros 20 o retorno é muito mais rápido, porque há uma força institucional. Estou convencida de que esse é o caminho, passar de uma visão fragmentada de cada município para uma atuação integrada, com maior atração de parcerias e recursos para a educação”.

CIÊNCIA

A segunda roda de conversa trouxe contribuições de diversas áreas da ciência para o processo de alfabetização e desenvolvimento humano. Contou com a participação, via videoconferência, de Rochele Paz Fonseca, coordenadora do grupo de pesquisa Neuropsicologia Clínica e Experimental da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; de Daniel Santos, professor de Economia da USP/Ribeirão Preto e pesquisador do eduLab21, laboratório de inovação do Instituto Ayrton Senna; e de Augusto Buchweitz, pesquisador do Instituto do Cérebro e professor dos programas de pós-graduação em Letras-Linguística e Medicina – Neurociências da PUC-RS.

Daniel Santos trouxe dados sobre como a primeira infância constitui janela de oportunidade de desenvolvimento de diversas competências. Já Rochele Fonseca abordou a importância do estímulo das funções executivas para a alfabetização e Augusto Buchweitz relatou sua experiência com crianças disléxicas e como o estudo sobre este transtorno traz luz sobre o processo de aprendizagem da leitura.

“Para identificar a dislexia é preciso contar com uma série de análises, entre outras coisas ter certeza que aquela criança teve boas oportunidades de alfabetização, com ensino de qualidade, em que seria esperado que ela tivesse aprendido a ler, mas não aprendeu, ou seja, tem uma dificuldade inesperada”, explicou o pesquisador. Segundo ele, por falta de clareza sobre o que é a dislexia, há crianças que são reprovadas apesar de terem desempenho cognitivo como as outras que são aprovadas, só possuem dificuldade específica para ler “Se identificar a tempo e oferecer um ensino mais adequado a essa criança, ela pode progredir como todas as outras.”

 

Fotos do evento:

Roda de Conversa “Gestão e financiamento da educação: novos modelos e mecanismos de cooperação”:

Roda de Conversa “A Ciência e o desenvolvimento humano no processo de alfabetização”:

 

Confira o material compartilhado no evento clicando nos links abaixo:

Palestra:

Ricardo Paes de Barros – Alfabetização e múltiplas linguagens

Roda de conversa – “Gestão e financiamento da educação: novos modelos e mecanismos de cooperação”

FERNANDO LUIZ ABRUCIO -Regime de Colaboração e seus instrumentos de gestão

NASSER MARÃO FILHO – Arranjo de Desenvolvimento da Educação (ADE) do Noroeste Paulista

ELIZIANE GORNIAK – Colaboração na gestão pública: ADEs Granfpolis

Roda de Conversa – “A Ciência e o desenvolvimento humano no processo de alfabetização”

DANIEL SANTOS – Educação infantil: desafios atuais

AUGUSTO BUCHWEITZ –Dislexia e o processo de aprendizagem

ROCHELE PAZ FONSECA –Alfabetização e as funções executivas

Tags: Educação,

Ver todas as notícias

Cadastre-se e receba notícias e novidades do Instituto Ayrton Senna