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Educacao-360
Estudante está no centro do debate sobre nova educação

17 de setembro de 2015

O estudante que chega às escolas hoje é muito diferente daquele de poucas décadas atrás, e essas novas características não podem ser ignoradas pelos projetos das escolas, se quiserem preparar os jovens para atuar com autonomia no século 21. Embora existam posições muito diversas sobre qual o melhor caminho para fazer esse avanço, o tema tem sido destaque nos principais debates sobre educação no país, e foi também no Educação 360°, que aconteceu nos dias 11 e 12 de setembro no Rio de Janeiro.

Promovido pelos jornais O Globo e Extra, em parceria com a prefeitura do Rio de Janeiro e o Sesc e com apoio da TV Globo e Canal Futura, o encontro internacional reuniu pesquisadores, professores e gestores de educação para apresentações sobre projetos inovadores e mesas de debate sobre aspectos centrais da área, inclusive abarcando pontos de vista diferentes entre si. Na mesa “Novos alunos, velho alunos?”, o diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, e o professor da Faculdade de Educação da Unicamp Luiz Carlos Freitas conversaram sobre a função da escola na vida de estudantes do século 21.

Para os dois, as mudanças necessárias passam por ligar a escola à vida dos estudantes, ou seja, por entender a perspectiva das crianças e jovens no mundo de hoje – altamente conectados, com acesso a fontes de informação diversificadas, não mais dispostos a ouvir passivamente uma aula em que um professor apenas transfere conteúdos.

Mozart apresentou algumas iniciativas do Instituto junto a redes públicas de ensino que buscam uma alteração através da educação integral, que desenvolve tanto conteúdos quanto habilidades e competências necessárias para viver no século 21 (como pensamento crítico, colaboração e motivação). “Essas habilidades ajudam no desempenho cognitivo e também na vida futura desses jovens de forma plena. São aspectos que já estão no dia a dia das escolas, mas quando integramos ao projeto pedagógico e redimensionamos o tratamento deles com os conteúdos escolares de forma articulada, motivamos os alunos e os professores”, afirmou.

Para Freitas, ao pensar no novo estudante é preciso pensar também na relação dele com os professores, que deixa de ser de subordinação. “Introduzir novas formas de ensinar e aprender implica em mudar a função social que a escola teve até agora, a sala de aula isolada da vida. Mas é fundamental entender que temos um novo estudante na mesma velha escola, que não muda significativamente sua estrutura”, disse. Segundo ele, essa contradição acontece porque o sistema escolar não quer perder o controle sobre a interpretação de mundo dos alunos.

Nesse contexto, na análise de Freitas, o trabalho com as habilidades e competências na escola passaria a integrar um conjunto de mecanismos de controle sobre o professor e o aluno. No caso dos professores, por medidas como atuação baseada apenas em apostilas e protocolos construídos externamente. “Em relação ao aluno, trata-se de valorizar determinados traços que facilitam o trabalho da escola, entre eles a ‘cooperação’, a resistência ao fracasso, docilidade e adequação à escola, o aluno bem comportado”, afirmou, defendendo que a educação precisa ter cautela antes de induzir políticas públicas com esse enfoque.

“O problema é que existem múltiplas formas de interpretar o assunto, e ainda estamos distantes de saber como converter teorias em estratégias de ensino, muito menos avaliar esses aspectos em larga escala sem termos todo conhecimento sobre como interpretar seus resultados”, defendeu.

Mozart reconheceu que o campo ainda possui controvérsias, e valorizou a busca por diálogos para que todos possam esclarecer seus pontos. “Não há um modelo único para construir a nova escola, as parcerias com o Instituto buscam um dos caminhos possíveis para fazer essa contribuição. O mais importante é ajudar o professor a dialogar com o mundo da juventude de forma integral.”

TEMAS DIVERSIFICADOS

O Seminário contou também com apresentações de nomes de destaque sobre temas diversificados. A secretária de Educação da capital da Finlândia, Marjo Kyllonen, falou sobre como o país está reestruturando seu sistema de ensino – que nos últimos anos foi referência no desempenho em provas internacionais de matemática, linguagens e ciências – para criar novas estratégias de ensino e aprendizagem, de olho nas competências para o futuro.

“Não sabemos quais serão os desafios que os jovens de hoje vão ter que resolver em 2070, mas sabemos que para prepará-los não basta olharmos com a mesma mentalidade de hoje. O mundo é mais complexo, imprevisível e multidimensional, o que nos faz repensar o papel da escola”, analisou Marjo. Segundo ela, com essa perspectiva o país está revendo o currículo, a formação de professores e de lideranças escolares e a avaliação para um formato mais holístico, ou seja, mais interdisciplinar e articulado com habilidades como criatividade. “Não significa negligenciar conteúdos, mas aborda-los de forma diferente, que empodere todos os envolvidos, tanto os professores com novas práticas como o aprendiz com papel ativo na aprendizagem.”

Com duas apresentações, por conta do rápido esgotamento de inscrições, o sociólogo Zygmunt Bauman falou sobre os desafios modernos para a educação, que incluem mudanças no modo de pensar e de se relacionar com as outras pessoas. “Somos inundados por informação, mas não por conhecimento; (…) as pessoas estão fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, com pouca concentração e paciência; tudo isso tem impactos profundos no nosso modo de estar no mundo”, disse o pesquisador. “Ainda assim, a habilidade de adquirir aprendizados é importante, porque a educação é que permite confrontar o desconhecido e tornar familiar, e olhar para o familiar para abrir novas portas.”

O ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, apresentou propostas do ministério para levar à educação o debate sobre a ética e falou sobre a importância de a sociedade cobrar uma educação pública de qualidade. Em outra mesa de debate, a assessora especial do ministro Helena Singer divulgou uma iniciativa lançada no início do mês pelo MEC para identificar iniciativas inovadoras pelo país. “O Ministério quer mapear onde estão os educadores, alunos e famílias que já participam de projetos inovadores e criativos que transformam realmente a prática escolar e pensar em programas que fortaleçam esses caminhos”, disse. “Não será uma imposição de caminhos, porque a inovação tem diferenças regionais, mas podemos dizer quais propostas altamente inovadoras de áreas indígenas a partir de conhecimentos locais podem trazer referências para o Brasil, por exemplo.”

 NA MÍDIA

O Globo
Competências socioemocionais são essenciais para o aluno do século 21, dizem especialistas

Extra
Novas funções da escola para a vida do aluno são debatidas no encontro Educação 360

 

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