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Interagir é o melhor caminho para aprender

10 de novembro de 2015

O cérebro humano é construído para aprender com as interações sociais, ou seja, com o contato direto com outras pessoas, especialmente nos primeiros anos de vida. Para o neurocientista Andrew Meltzoff, isso mostra a importância de construir estruturas de ensino que considerem mais o “face a face” do que a tecnologia ou tarefas individuais. Os estudos dele buscam identificar quais estímulos são mais importantes para a aprendizagem a cada etapa da vida, o que não significa que a tecnologia não tenha seu papel, mas que não pode ser vista como substituta às interações humanas.

A pesquisa de Meltzoff, que coordena o Instituto de Aprendizado e Neurociência da Universidade de Washington, foi apresentada no Brasil durante o I Simpósio Internacional Ciência para a Educação, que teve apoio do Instituto Ayrton Senna. O psicólogo é reconhecido por seus estudos sobre desenvolvimento infantil, incluindo os mecanismos cerebrais pelos quais os bebês reconhecem sentimentos de outras pessoas e buscam imitar seu comportamento, uma das bases para a formação cognitiva.

“As crianças são muito motivadas para aprender com outras pessoas, mas hoje vemos muitas delas aprendendo apenas com máquinas e não sabemos quanto isso pode afetar o desenvolvimento. Eu não digo que a tecnologia não ajuda, mas que nos primeiros anos de vida temos um aprendizado melhor através de outras pessoas do que através de uma tela de computador”, afirmou o pesquisador.

Meltzoff lembra que na sociedade atual muitos pais e mães sentem-se pressionados a estimular os filhos com todas as “novidades” que a indústria oferece, buscando incessantemente o melhor brinquedo ou ferramenta para desenvolvimento cerebral, mas que essa situação gerou muita confusão e frustração para muitos pais. “O ‘brinquedo’ favorito da criança é estar com outro ser humano; é isso que faz o cérebro crescer, desenvolve linguagem, reconhecimento de emoções e outras habilidades importantes para o crescimento”, defende.

Segundo o cientista, muitas pessoas pensam que a inteligência é apenas um conjunto nato de capacidade individual para resolver problemas, mas ninguém nasce com essa estrutura cerebral totalmente “pronta”. “Nós nascemos feitos para aprender, nosso cérebro tem mecanismos feitos exatamente para seu próprio desenvolvimento, que vai ocorrendo ao longo do crescimento dependendo dos inputs que recebemos do ambiente, da cultura e das pessoas ao redor. O melhor “alimento cerebral” é o ambiente social, e as interações sociais são as grandes catalizadoras da aprendizagem”, disse.

As pesquisas realizadas por este grupo de trabalho indicam que as relações entre as pessoas são extremamente importantes para possibilitar mudanças em habilidades cognitivas, emocionais e de comportamento, e que as escolas podem desenhar contextos de aprendizagem com práticas que sejam mais eficientes neste ponto de vista. O objetivo agora é usar esses conhecimentos para orientar práticas educativas que consigam otimizar o poder das interações sociais – tantos das crianças entre si quanto delas com seus professores, cuidadores e famílias.

Segundo o pesquisador, realizar a mentoria presencial, ou o acompanhamento lado a lado com o estudante, está entre as formas mais efetivas de instrução feitas nas escolas. Outro elemento-chave é a atividade de resolução colaborativa de problemas, uma vez que permite que cada integrante do grupo incorpore um conhecimento ou um pensamento inovador passado por outro colega. Em seus trabalhos, Meltzoff orienta professores a estimular entre os alunos situações de exploração e descoberta sem medo do erro.

Outro caminho é realizar intervenções com formatos variados, que lidem com todos os sentidos e de forma ativa, não apenas transmitindo informações que serão recebidas passivamente. Todas essas atividades serão mais eficazes se forem acompanhadas por feedback dado por um educador à criança, e que haja tempo para que o aprendiz possa processar o que aprendeu. Segundo Meltzoff, a ciência não apoia a ideia de que estimulação extra, que vá além das interações normais é necessária para o crescimento emocional ou cognitivo.

Pelo mesmo motivo, o cientista defende que não há uma dicotomia entre as atividades educativas para crianças e a brincadeira. Segundo ele, as atividades em que as crianças brincam também são profundas experiências de aprendizagem e são vitais para o desenvolvimento infantil, daí a importância de garantir tempos e espaços para a brincadeira, que não seja um excesso de estímulo, e sim um momento de explorar seus interesses e limites, transformar sua perspectiva e tentar possibilidades diversas para fazer uma mesma ação.

Muitas dessas informações já integram o campo de pesquisa em educação há muito tempo, mas agora estão também recebendo mais contribuições de outras áreas da ciência, com dados que há alguns anos nem se imaginava que seriam possíveis de se obter. “Mesmo Piaget e Vygotsky teriam interesse em olhar para as novas informações, já que entendiam que as teorias são dinâmicas. Agora, temos novas técnicas e instrumentos para gerar conhecimentos e o que precisamos é fortalecer o contato entre a ciência e a prática do ensino-aprendizagem, ampliando as interações entre quem estuda a educação e quem faz as políticas de ensino.”

SIMPÓSIO
Os estudos foram apresentados durante o I Simpósio Internacional sobre Ciência para Educação ,  que aconteceu no Rio de Janeiro nos dias 5 e 6 de julho. Organizado pela Rede Nacional de Ciência para Educação,  em parceria com o Instituto Ayrton Senna, o simpósio reuniu pesquisadores de áreas diversas da neurociência para compartilhar conhecimentos que possam ter impacto na melhoria de práticas e políticas educacionais.

Confira aqui a playlist com todas as palestras do evento.

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