Notícias

Foto: Bruno Polengo
O PISA e as competências socioemocionais: caminhos para o salto de qualidade

Foto: Bruno Polengo

18 de janeiro de 2017

A publicação dos resultados do PISA 2015, divulgados no fim do ano passado, não trouxe surpresas. O Brasil continua estagnado nas piores posições da avaliação coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Humano, que examina as habilidades de leitura, matemática e ciências de jovens de 15 anos em 72 países.

Não vou me alongar na descrição desse panorama, que tem sido bastante analisado, mas na reflexão sobre os caminhos para superá-lo. Ainda que não haja uma solução miraculosa para nossos problemas educacionais, sabemos que não vamos vencê-los com medidas incrementais. Teremos de promover mudanças profundas, e ouso dizer, paradigmáticas, na própria visão do que é educação de qualidade.

Evidentemente, educação de qualidade pressupõe a aprendizagem plena em leitura, matemática e ciências. Mas é só disso que vamos precisar para viver no século 21? Certamente não, e a própria OCDE reconhece e necessidade de se expandir essa fronteira, incluindo o desenvolvimento intencional de competências socioemocionais (como persistência, abertura e colaboração). Por isso, na edição de 2015, o PISA abarcou a avaliação de resolução colaborativa de problemas, acenando para a inclusão de aspectos socioemocionais.

Essa inclusão não foi gratuita, mas baseada em evidências. Por meio do seu Centro para Pesquisa e Inovação Educacional (CERI), a OCDE vem investigando a importância das competências socioemocionais e buscando maneiras de avaliá-las. No Brasil, uma parceria entre o CERI e o Instituto possibilitou a elaboração de um instrumento de avaliação de competências socioemocionais no contexto escolar, validado por uma aplicação com cerca de 25.000 alunos da Rede Estadual do Rio de Janeiro. Os resultados revelaram que os alunos com alto grau de responsabilidade e determinação estavam 1/3 do ano letivo à frente dos seus colegas em matemática, enquanto os alunos com alto grau de abertura estavam 1/3 do ano letivo à frente em português.

Diante dessas evidências, corroboradas por pesquisas internacionais (como as conduzidas pelo Nobel de Economia James Heckman), não seria o caso de investir no desenvolvimento dessas competências como forma de promover o salto de aprendizagem de que o Brasil tanto necessita? Baseado no impacto apresentado por uma solução de educação integral para o ensino médio desenvolvida pelo Instituto no Rio de Janeiro (que combina competências cognitivas e socioemocionais), nosso economista-chefe, Ricardo Paes de Barros, estimou que o Brasil saltaria da 69ª posição do PISA (considerando alunos que atingiram pelo menos o nível 2 da prova de matemática, em todos os países e territórios avaliados), atrás da Colômbia, e atingiria a 38ª posição, à frente de Estados Unidos, caso oferecesse educação integral de qualidade para todos seus alunos.

É claro que investir no desenvolvimento dessas competências não significa deixar de trabalhar pela formação dos professores e pela definição de objetivos de aprendizagem. Muito pelo contrário, mais do que nunca precisamos aprofundar nesses temas. Por isso, a discussão de carreira docente e de currículo, já em curso com o Plano Nacional de Educação e com a Base Nacional Comum Curricular, não pode se dar de forma separada do debate sobre educação para o século 21.

Para oferecer mais evidências para a tomada de decisão nessas áreas, o Instituto tem investido em iniciativas de produção de conhecimento sobre educação integral. Além da parceria com a OCDE, criamos um laboratório dedicado a produzir conhecimento científico para subsidiar a formulação de políticas públicas baseadas em evidência. Em 2015, uma das atividades do eduLab21 foi a inclusão de itens para avaliação de competências socioemocionais no questionário do INAF, o Índice Nacional de Alfabetismo Funcional, em parceria com o Instituto Paulo Montenegro.

Os resultados preliminares do INAF 2015 demonstram que, dentre os brasileiros menos favorecidos, aqueles que atingem os patamares maiores de alfabetismo e realizações na vida (medidas por renda e escolaridade final atingida) são justamente os que possuem maior grau de abertura, persistência e autoestima. Esse dado revela que a promoção dessas competências pode ser uma poderosa aliada para diminuição das desigualdades sociais. Mais uma vez, tudo indica que há um poder de transformação nas competências socioemocionais que não podemos ignorar.

Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo.

Tags: Artigo,

Ver todas as notícias

Cadastre-se e receba notícias e novidades do Instituto Ayrton Senna