publicado em 8 de setembro de 2020

Educação e inovação no século XXI

Por Mozart Neves Ramos
(Correio Braziliense ‐ Opinião ‐ 04/05/2017)

No século XXI, a relação entre educação e inovação é cada vez mais profunda e recíproca. Precisaremos investir muito em educação de qualidade se quisermos alcançar o patamar das sociedades mais inovadoras do mundo, e só conseguiremos dar um verdadeiro salto de qualidade na nossa educação se inovarmos profundamente a maneira como educamos.

O preço por negligenciar essa relação pode ser – e já está sendo – altíssimo. Do ponto de vista econômico, a falta de qualidade da nossa educação se reflete no baixo índice de produtividade dos nossos trabalhadores e na nossa dependência econômica de commodities. Se não fizermos nada para mudar esse cenário, estaremos sempre à mercê da inovação produzida por outros países, vendendo produtos e serviços baratos e comprando tecnologias caras que não seremos capazes de desenvolver. Certamente, continuaremos ouvindo falar de brasileiros criativos que desenvolvem soluções inovadoras para problemas pontuais, mas eles continuarão sendo ilhas de excelência em um mar de obsolescência e improdutividade.

Só a educação de qualidade para todos pode garantir um futuro de prosperidade para nossa sociedade. Um estudo do economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, Ricardo Paes de Barros, mostrou que, entre 1990 e 2015, cada ano a mais de estudo no país foi seguido de um aumento extra de produção de apenas US$ 98 por trabalhador ao ano, sendo que no Chile e na Coréia esse aumento foi de US$ 829 e US$ 842, respectivamente.

Esse dado revela que, apesar de a média de anos de escolaridade dos brasileiros ter se expandido consideravelmente, nosso sistema educacional não está dando conta de preparar os jovens para um mercado de trabalho cada vez mais globalizado e complexo.

Precisamos urgentemente inovar a nossa educação. Digo “inovar” porque não se trata de “consertar” ou “remendar”. Trata-se de criar uma nova educação que responda aos desafios do mundo em que vivemos. Diferentemente do mundo do século XIX (em que foi concebido o sistema educacional vigente), o mundo atual exige das pessoas a capacidade de seguir aprendendo ao longo da vida e de colocar o conhecimento “em ação” para possibilitar a resolução de problemas que ainda não são conhecidos. Para isso, a escola precisa fazer mais do que transmitir conteúdo; precisa considerar o aluno “por inteiro”, trabalhando o desenvolvimento de suas competências cognitivas (como raciocínio lógico e pensamento crítico) e socioemocionais (como resiliência e colaboração), promovendo o seu protagonismo e o seu engajamento com a própria aprendizagem.

A flexibilização dos currículos, a personalização do ensino, o foco em multiletramentos (letramento em programação, letramento científico, letramento corporal, etc.), os métodos híbridos de ensino (em que métodos online e presencial se misturam), a gamificação dos conteúdos e outras inovações são alguns caminhos para a promoção dessa educação integral, mas não são os únicos. Assim como nossas crianças e nossos jovens, teremos que ser abertos e criativos para pensar o futuro da educação. Seja qual for esse futuro, precisaremos investir em políticas e práticas baseadas em experiências e evidências, num espírito de compromisso e colaboração entre gestores, educadores, empresários e a sociedade em geral.

Um belo exemplo desse espírito vem ocorrendo no Estado de Santa Catarina, por meio do movimento Santa Catarina pela Educação, liderado pela Federação das Indústrias (Fiesc) daquele estado, pelo poder público da Educação, tanto na esfera estadual como municipal, pelas federações do Comércio, dos Transportes e da Agricultura, além dos institutos e fundações do terceiro setor, como os institutos Ayrton Senna e Natura. Um belo exemplo de como colocar em prática o que está posto no Artigo 205 da Constituição Brasileira: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Não é à toa que lá se costuma dizer: “A educação é o novo nome do desenvolvimento”.

Portanto, não vamos pensar que, quando falamos de inovação, estamos falando apenas de incorporar as novas tecnologias e metodologias na sala de aula. É muito mais do que isso. Inovação é sermos capazes de empurrar a fronteira do conhecimento, de prover ao professor o acesso a esse conhecimento, para assegurar aos nossos alunos o direito à aprendizagem, fazendo isso de forma colaborativa com a sociedade, trabalhando todos juntos em prol de uma educação de qualidade.

Sem esse compromisso, não haverá educação, não haverá inovação. E, temo dizer, não haverá futuro.