publicado em 18.12.2018 ÀS 15:11

Ensino Médio: chegamos ao fundo do poço

Por Mozart Neves Ramos 
(Opinião - Correio Braziliense - 06/09/2018)

Começo este artigo destacando a coragem do ministro da Educação, Rossieli Soares, ao afirmar de forma honesta à sociedade brasileira que o ensino médio no país chegou ao fundo do poço. Em regra, os governantes tentam tampar o sol com a peneira, dando justificativas absolutamente incoerentes com os resultados. Por isso, começo parabenizando o ministro Rossieli por sua coragem cívica. Creio que, assim, ele pode iniciar um processo de mobilização na sociedade para vencer o atual desastre (outro termo usado por ele) do ensino médio brasileiro. Mas o que levou o ministro a usar essa terminologia tão forte ao se referir ao ensino médio?

De acordo o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), exame realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação, 70% dos alunos de 14 a 17 anos não aprenderam praticamente nada do esperado para as séries que estão cursando, tanto em português quanto em matemática. Mesmo no terceiro ano do ensino médio, a maior parte dos jovens não sabe identificar a informação principal de uma reportagem ou calcular porcentagem, por exemplo. O mais grave disso tudo é que esse problema se arrasta por mais de 20 anos, desde 1995. É como um paciente que está há ano em estado crítico numa Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) sem que possamos tirá-lo desse quadro. Mas o problema não para por aí. Qual é a consequência de tudo isso?

Vamos começar pelo custo educacional. Como a larga maioria das escolas de Ensino Médio no Brasil não são atraentes—no sentido de que o jovem quer um ensino que caiba na vida, que lhe traga significado para poder lidar com o mundo em que vive —, cerca de 575 mil alunos abandonam a escola nessa fase no Brasil. Como o custo do aluno, nessa última etapa da Educação Básica, é de R$ 6.630 ao ano, isso significa que, só com o abandono escolar, o país perde algo em torno de R$ 3,8 bilhões! Se considerarmos que o ano tem 365 dias e o transformarmos em minutos, isso significa também que, a cada minuto, um aluno abandona a escola de Ensino Médio no Brasil! E os que não o fazem têm o nível de aprendizagem mencionado acima! E qual é o custo social disso?

Esses jovens que deixam a escola são candidatos em potencial a engrossar a turma dos “nem-nem”— nem estudam nem trabalham. Em 2017, o Brasil tinha 48,5 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos, das quais 11,1 milhões não trabalhavam e também não estavam matriculadas em uma escola, faculdade, nem em curso técnico de nível médio ou de qualificação profissional, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esses jovens estão em elevado nível de vulnerabilidade social, o que, lamentavelmente, tem uma conexão muito próxima com o perfil etário das taxas de homicídios no Brasil.

A boa notícia é que temos um caminho para solucionar o grave problema do ensino médio no Brasil: as escolas de educação integral em tempo integral. Essas escolas naturalmente custam mais do que as de tempo parcial, mas são de longe as que correspondem ao grande desejo dos jovens: uma escola com significado para eles. Uma escola que eles não abandonam, onde aprendem e se realizam. E mais, ficam preparados para realizar, assim, o seu projeto de vida. Por isso, os 40%/50% a mais em termos de custo significam muito pouco perante tudo isso. Já temos muitos casos no Brasil. Mas, como referência, citaria o Ginásio Pernambucano, em Recife, e o Colégio Estadual Chico Anysio (Ceca), na cidade do Rio de Janeiro, que representam epicentros de metodologias pedagógicas bem-sucedidas, que serviram de base para a implantação de tantas outras em todo o Brasil.

Não se trata apenas de mais tempo na escola. Porque colocar o jovem o dia inteiro numa escola com a qual ele não se identifica não deixa de ser um castigo. O que não é o caso dessas escolas. Nelas, os jovens são preparados para uma educação plena, o que significa ir muito além dos aspectos da aprendizagem tradicional, desenvolvendo competências para a vida futura, tanto no campo pessoal quanto no profissional. Não podemos abrir mão de nenhum jovem— não só por razões da própria cidadania, mas também para que o país possa usufruir do bônus demográfico que ainda lhe resta.  

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