publicado em 13.02.2019 ÀS 11:07

Jovens: estudem mais, o país precisa!

Por Mozart Neves Ramos
(Correio Braziliense – Opinião – 09/02/2019)

Muitos jovens sonham em chegar à universidade: basta olhar o número de inscritos a cada ano no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para alguns, isso representa um sonho de criança, moldado algumas vezes pelo desejo dos próprios pais. Para outros, porque esse é o caminho mais seguro para ter, no futuro, um status social mais elevado. Seja qual for a razão, chegar à universidade faz parte do projeto de vida da larga maioria dos jovens brasileiros.

Impulsionados por esse sonho, colocamos a seguinte questão: vale mesmo a pena ter um diploma de Ensino Superior? Um dos pesquisadores que melhor responde a essa questão é o professor Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, usando dados do Programa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  Segundo ele, cada ano a mais de escolaridade representa, em média, 11% a mais na renda de uma pessoa!

Sabemos que ter um diploma de nível superior não é garantia de emprego, mas coloca o trabalhador em vantagem salarial cada vez maior. Ainda segundo Marcelo Neri, um trabalhador com Ensino Superior completo recebe, em média, 5,7 vezes o rendimento de um brasileiro com até um ano de estudo.  E mais: o Ensino Superior é uma oportunidade para reduzir as desigualdades em nosso país. Por exemplo, o salário de quem tem curso superior e pais sem instrução é de R$ 2.603,00. Quando os pais têm curso superior, a renda sobe para R$ 6.739,00. "O retorno da educação que você vai conquistar será tão maior quanto maior for a educação dos pais, por causa da bagagem familiar, das conexões e da qualidade da educação", afirma Neri. A primeira conclusão que tiramos é: quanto mais você estuda, maiores as chances de ter uma renda maior e menores as de perpetuar a desigualdade!

Atrelada a essa questão vem outra: há uma relação entre mais anos de estudo e a produtividade média de um trabalhador? Quem responde bem a essa questão é Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor no Insper, quando mostra que, em países em que os estudantes têm um ano a mais de escolaridade, a produtividade média do trabalho é 25% maior. E mais, esse impacto é tanto maior quanto melhor a qualidade da educação.

Uma comparação simples da produtividade do trabalhador brasileiro com a do americano e do argentino revela que são precisos cinco trabalhadores brasileiros para fazer o que faz um americano, e três brasileiros para o que faz um argentino. E grande parte dessa proporção pode ser explicada pela qualidade do nível educacional. Mais uma conclusão: o impacto de um ano a mais de escolaridade na produtividade média do trabalhador depende do país onde isso ocorre, em função da qualidade da educação oferecida. Em outras palavras, um país com mais e melhor educação produz mais.

Vale também registrar, olhando gráficos de produtividade média do trabalhador versus anos de escolaridade de diversos países, que é a partir do Ensino Médio que o impacto na produtividade é ainda mais relevante! Isso nos leva, naturalmente, à pergunta seguinte: e como anda nosso Ensino Médio? A resposta é simples: muito ruim, infelizmente. Apesar de o problema começar lá na alfabetização, o tamanho do desastre educacional brasileiro, em termos de qualidade, atinge o ápice no Ensino Médio. De cada 100 jovens que concluem esta última etapa da Educação Básica, apenas 7 aprendem o que seria esperado em matemática; em língua portuguesa, esse número sobe para 28, resultado nada relevante. Por ano, aproximadamente 550 mil jovens abandonam o Ensino Médio, o que representa, só em custo educacional – não estou levando aqui em conta o custo social –, algo da ordem de 3,5 bilhões de reais.

A baixa qualidade da Educação Básica é um dos principais fatores do baixo percentual de jovens, na faixa etária de 18 a 24 anos, no Ensino Superior – hoje estimado em 19%.  A meta para 2024, em conformidade com o Plano Nacional de Educação (PNE), é chegar a 33%. Seja pela queda do financiamento público em educação superior por meio do Fies, seja por essa baixa qualidade, não vamos alcançar essa meta – que, diga-se de passagem, era a prevista no PNE que se encerrou em 2010. Essa meta foi jogada para 2024, e, mesmo assim, vamos fracassar mais uma vez.

Conclusão geral: é preciso que nossos jovens estudem mais e que tenham uma educação com significado. Isso vai ter um impacto relevante na produtividade, e, por conseguinte, em nosso Produto Interno Bruto (PIB), que por sua vez rebaterá diretamente nos níveis de investimento na educação, reduzindo as desigualdades e efetivando o sonho da maioria desses jovens: ter um curso superior.

 

*Este artigo foi inspirado em palestra dada no Centro Universitário UDF/Brasília quando da inauguração do Auditório Professor Hermes Ferreira Figueiredo, em 1° de fevereiro de 2019.

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