publicado em 12.01.2018 ÀS 11:19

A verdadeira Independência começa pela Educação

Por Mozart Neves Ramos
(Correio Braziliense ‐ Opinião ‐ 07/09/2017)

Há 195 anos, o Brasil se tornava independente de Portugal. De lá para cá, muita coisa mudou em nosso País, graças ao trabalho de verdadeiros brasileiros, como os abolicionistas Joaquim Nabuco, Tobias Barreto e Castro Alves, que passaram pelas salas de aula da tradicional Faculdade de Direito do Recife, da Universidade Federal de Pernambuco – universidade da qual tive a honra de ser o primeiro reitor reeleito de sua história. Certamente, a educação teve um papel central na visão desses abolicionistas.

Contudo, ainda hoje, o Brasil possui treze milhões de brasileiros que não sabem ler e escrever. O número representa 8,7% da população acima de 15 anos. Como ponto de partida dessa vergonha nacional, temos um grande contingente de crianças, cerca de 40%, que ainda não sabem ler, escrever e contar adequadamente ao término do ciclo de alfabetização. Por isso, não podemos dizer que somos um País plenamente independente.

Essa foi uma das razões da criação do movimento Todos pela Educação, há onze anos, mais precisamente em 6 de setembro de 2006 (e do qual tive o privilégio de ser seu primeiro presidente-executivo). Costumávamos dizer, naquela oportunidade, que a verdadeira independência só se daria de fato quando todas as crianças e todos os jovens brasileiros tivessem acesso a uma educação de qualidade. Nesse sentido, 2022 foi escolhido como ano de referência para que isso acontecesse, momento em que o Brasil irá comemorar seus 200 anos de sua independência de Portugal.

Pensando num Brasil verdadeiramente independente, o movimento Todos pela Educação estabeleceu cinco metas para uma educação de qualidade, entre elas, a de alfabetizar todas as crianças ao fim do ciclo de alfabetização. É uma meta que, provavelmente, já não iremos alcançar. Ao menos, hoje sabemos – e o movimento teve uma influência decisiva nessa questão – quantas crianças ainda não foram plenamente alfabetizadas e onde elas estão, graças a Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA). O Ceará tem sido um exemplo de como alfabetizar as crianças na idade certa, e o Brasil até que procurou seguir seu exemplo, mas sem o sucesso esperado.

Penso que o primeiro passo para esta verdadeira independência do Brasil seria o de valorizar nossos alfabetizadores, e não apenas dar uma bolsa de miséria para eles no Programa Nacional da Alfabetização na Idade Certa (PNAIC). Isso também passa por ter instituições que sejam capazes de formar alfabetizadores para o chão de escola, preparando-os para a prática da sala de aula.

Considerando que a alfabetização é a pedra angular da educação, esse seria um passo decisivo para nossa verdadeira independência. E por não fazer isso adequadamente, muitas crianças terminam os anos iniciais do Ensino Fundamental (o antigo primário),  com baixos índices de aprendizado escolar em Língua Portuguesa e em Matemática, apesar de ser esta a etapa da Educação Básica na qual o Brasil vem melhorando, embora ainda esteja longe do ideal.

Os reflexos nas duas etapas escolares seguintes, ou seja, nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, são ainda mais drásticos. Cerca de 50% das crianças que começam a vida escolar não terminam a Educação Básica, ou seja, concluem o Ensino Médio. E entre aqueles que ainda terminam, apenas sete de cada 100 aprenderam o que seria esperado em Matemática! Em Língua Portuguesa, a situação é um pouco melhor, apenas 28, mas ainda distante do ideal.

Temos hoje no Brasil 1 milhão de jovens de 15 a 17 anos sem estudar e sem realizar nenhuma atividade laboral. É justamente o berço da geração nem nem, que nem estuda e nem trabalha, e que representa cerca de 10 milhões de jovens nessa condição, na faixa etária de 15 a 29 anos.

Portanto, só vamos comemorar a verdadeira independência de nosso País quando todas as nossas crianças e todos os nossos jovens tiverem acesso a uma escola de qualidade, o que significa dizer uma escola que assegure o direito à aprendizagem a todos os alunos na idade certa. Mas, para que isso ocorra, precisamos dar ao professor o acesso ao conhecimento, provê-los de uma boa formação e que os prepare para a prática escolar. Só assim teremos, de fato, um Brasil independente. 

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